WILSON MARTINS
(JB – 05/07/2008)
O romance político brasileiro tende a ser escrito em modo paródico, no que diferimos de outros países, como a França e a Rússia, por exemplo, onde predomina o modo dramático. Já se disse que Os possessos é o maior romance político jamais escrito, mas, se lermos Júlio César, de Shakespeare, como romance político, perceberemos que a espécie responde a momentos de civilização, circunstâncias históricas e conjunturas-culturais. No Brasil, podemos encarar Vila dos Confins, de Mário Palmério, como protótipo por excelência, romance que, publicado em mau momento (ano de Grande sertão: veredas), foi lançado no oblívio e menosprezado diante da glória que imediatamente cercou o livro de Guimarães Rosa. A opinião literária é feita de lugares-comuns e verdades aceitas, de forma que, tudo bem pensado, a glória de Guimarães Rosa acabou por nos causar mais mal do que bem, paralisando a literatura num padrão que só teria sentido por ser excepcional.
Com sua "história do tempo da era" (De paixões e de vampiros. Rio: Bertrand Brasil, 2008), Ruy Espinheira Filho acrescenta uma pequena obra-prima à linhagem da Vila dos Confins, porque o tropismo do nosso romance político é sempre situar-se em pequenas cidades do interior. Transferindo-se para Manacá da Serra a fim de continuar seus estudos, o protagonista-narrador integrou-se à vida local, costumes, tipos populares, preconceitos, intrigas partidárias e pessoais, além de procurar trabalho como repórter voluntário no único jornal da cidade como campo de treinamento para suas ambições literárias.
O diretor, Juvenal Andrade, "devia andar pelos 50 anos. Era um tipo descarnado, de um metro e setenta de altura, rosto pálido e escanhoado, bigodes cor de mel, olhos (...) um tanto encovados, sobrancelhas espessas, testa ampla, cabeleira revolta, já rarefeita pelo tempo". O narrador já havia feito as suas leituras: "Poderia - como constatei, com espanto, anos depois - ter posado para o retrato que Manet fez de Mallarmé em 1876". Seja como for, aí temos a figura física do jornalista, porque, quanto à figura moral, é o que se poderia esperar: um cético, curtido pela experiência e pelas experiências, acolhendo com bonomia o jovem ambicioso em quem certamente se via reproduzido naquela idade.
Era no tempo das grandes campanhas eleitorais para a presidência da República, com três candidatos paradigmáticos: o Rouba Mas Faz, o Homem da Vassoura e o General, participando de comícios sucessivos. "Tendo partido o Homem da Vassoura, a cidade pôs-se à espera do General. (...) Os serviços de alto-falante duelavam como nunca, exaltando as qualidades de seus preferidos e malhando impiedosamente os adversários". Chegando "numa bela tarde de setembro", o General declarou que sua demora seria pequena, pois viajaria logo em seguida para o comício seguinte, "abortando em sua maior parte a festa planejada para reduzir a zero a que fôra promovida pelo Hirsuto (chefe político local) para o Homem da Vassoura".
Assim mesmo valeu a pena pelo belo discurso de recepção pronunciado pelo prefeito: "Não julgueis que vim trazer a paz sobre a terra! Vim trazer não a paz, mas a espada!" – discurso encomendado e pago pelo prefeito a Juvenal Andrade, que, por sua vez, repetia o que o General vinha repetindo pelo país afora e que, como era inevitável, repetiu depois do prefeito: "Como saber que discurso o General ia fazer?", justificava-se depois o velho jornalista, declarando tê-lo ouvido tantas vezes pelo rádio que pôde reconstituí-lo sem maior esforço... Mas, esclarecia ao discípulo boquiaberto: "não pense que embolsei os cinco mil do homem. Hoje cedo fiz um cheque e mandei pra ele (...)".
A essa altura, o Homem da Vassoura já havia passado pela cidade, logo à chegada encaminhado para a bela residência do chefe político e perguntando com a aflição que se imagina: "Onde fica o sanitário?", encontrou ocupados os dois primeiros que puderam localizar.
Quanto ao Rouba Mas Faz, fora recebido com entusiásticas manifestações: "Abriu-se a porta do bimotor... e a esperada figura, embrulhada num terno cinza, fez um rápido aceno, mais atento à aventura de descer a escada. Já em segurança no solo, sorriu com todo o rosto balofo e amarelado, o bigode de asas amplamente abertas, a meia calvície cintilando, e ergueu os braços num gesto de abraçar todos os correligionários presentes".
É uma sátira, sem dúvida, mas sátira, estamos vendo, que pouco difere da realidade real, como diria Eça de Queiroz, mestre da ironia, família em que Ruy Espinheira Filho agora assegura o seu lugar. Não será a política contemporânea que poderá desmenti-lo.
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